As Forças Caudinas, Machado de Assis
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A cena passa-se em Petrópolis — Atualidade.
ATO PRIMEIRO
(Um jardim: mesa, cadeiras de ferro. A casa a um lado.)
CENA I
Seabra (assentado a um lado da mesa, com um livro aberto); Margarida (do outro lado)
Seabra — Queres que paremos aqui?
Margarida — Como quiseres.
Seabra (fechando o livro) — É melhor. As coisas boas não se gozam de uma
assentada. Guardemos um bocado para a noite. Demais, era já tempo que eu
passasse do idílio escrito para o idílio vivo. Deixa-me olhar para ti.
Margarida — Jesus! Parece que começamos a lua-de-mel.
Seabra — Parece e é. E se o casamento não fosse eternamente isto o que poderia
ser? A ligação de duas existências para meditar discretamente na melhor maneira
de comer o maxixe e o repolho? Ora, pelo amor de Deus! Eu penso que o
casamento deve ser um namoro eterno. Não pensas como eu?
Margarida — Sinto...
Seabra — Sentes, é quanto basta.
Margarida — Mas que as mulheres sintam é natural; os homens...
Seabra — Os homens são homens.
Margarida — O que nas mulheres é sensibilidade, nos homens é pieguice: desde
pequena me dizem isto.
Seabra — Enganam-te desde pequena.
Margarida — Antes isso!
Seabra — É a verdade. E desconfia sempre dos que mais falam, homens ou
mulheres. Tens perto um exemplo. A Emília faz um grande cavalo de batalha da sua
isenção. Quantas vezes se casou? Até aqui duas, e está nos vinte e cinco anos. Era
melhor calar-se mais e casar-se menos.
Margarida — Mas nela é brincadeira.
Seabra — Pois sim. O que não é brincadeira é que os cinco meses do nosso
casamento parecem-me cinco minutos...
Margarida — Cinco meses!
fonte: dominio público